Warsaw Village Band - Lisboa 23 Março
Os seis músicos que pisaram o palco provaram ser exímios na execução de instrumentos que remontam a um passado longínquo e que se pensava já esquecido. Fazendo uso do estilo “white singing”, aprendido com os pastores da Mazóvia, e de instrumentos como tambores, violinos, dulcimer e o remoto “szuka”, a banda percorreu as músicas dos seus mais recentes albuns “People Spring” e “Uprooting”, entoado baladas, cânticos rurais e polkas electrizantes num registo hard-core, místico e apaixonante. Cantou-se sobre o amor, paixão e morte, mas a disparidade entre o português e o polaco não se fez sentir, cantou-se e tocou-se directamente para a alma.
O sucesso alcançado por esta ilustre banda foi comprovado o ano passado com a atribuição do prémio “Novos Valores da World Music” da BBC. Contudo, seria falacioso limitar esta banda ao epíteto da música étnica, certamente é essa a sua base, mas existe um grande esforço em juntar ao ancestral sons mais urbanos. O casamento é feliz porque cria-se um estilo biológico do techno e impressiona o facto de instrumentos como o dulcimer possam ter ao mesmo tempo uma sonoridade do passado e do futuro.
Num mundo em que prevalece a homogeneização das culturas, tendencialmente ditas ocidentais, é sempre saudável ver que ainda há quem se preocupe em ir ao âmago das coisas, neste caso dos sons. Os Warsaw Village Band demonstraram ontem numa hora e meia de espectáculo (que se poderia ter prolongado até ao amanhecer com todo o público a dançar no encore) que no final a música pertencerá sempre à condição humana, mesmo nos campos isolados da Mazóvia, a pobreza e a solidão inspiram a sentimentos maiores que tentam alcançar o transcendental. A música já cá estava, nós é que lhe demos nome.
Rute Ventura in Clix Musica






